“A Invenção de Hugo Cabret” e o nosso triste novo mundo…

Filme - A Invenção de Hugo Cabret

Atendi ao convite de um amigo, Renato Ribeiro, após eu ter passado o dia removendo madeiras podres e atacadas por cupins do meu novo apartamento.

É estupenda a força necessária para arrancar as tais madeiras. Confesso que após 4 anos trabalhando quase que exclusivamente como desenvolvedor web e músico, digamos que a minha força física não esteja em suas melhores condições. Aquele profissional que foi até lá retirar as madeiras - e terminou ajudando a descer o entulho para o carreto - fez o que gadget nenhum jamais poderá fazer.

Hugo Cabret. Vou tomar bastante cuidado para não colocar spoilers no texto. Sei que posso dizer que, se você não viveu a época das artes manuais (quando fazíamos bonecos com casca de melancia, cavalinhos com maxixe e palitos de fósforo, e desmontávamos os nossos brinquedos - desmontávamos, não quebrávamos - para conhecer o seu mecanismo interno e aprender o mecanismo interno das coisas e, em consequência, do mundo), aproveite: talvez você comece a entender como as coisas chegaram até onde chegaram - na sua geração pífia e, permita-me, fracassada.

Não fique com raiva. Também não comece a vociferar que você tem a internet, o smartphone, o iPad, o iPhone, o iPod, o iPhode. Quem construiu isso foi a minha geração e a anterior, que nasceram entre os anos 50 e 90. A sua geração só fez usar isso para fazer o que nós conseguíamos fazer sem nenhum desses aparelhos: sonhar e nos conectar às pessoas.

Mas não estou aqui para fazer a já cansada “guerra de gerações”. Quando vocês tiverem a minha idade (que ainda é muito pouca, 31 anos), certamente dirão que a geração de vocês foi a última que prestou. E eu tenho certeza de que nem vocês, nem eu, nem ninguém terá razão ao dizer isto.

Longe de ser nostálgico, Hugo Cabret é ritmado, atento às relações entre as pessoas, e no quanto nós somos, naturalmente, complexos. Fomos capazes de promover eventos catastróficos - como as Grandes Guerras -, que nos tiraram (a todos!) do prumo e do rumo. E navegadores sem rumo não poderiam fazer mais nada a não ser criarem novas gerações à deriva (a princípio, um pouco desnorteadas, mas com alguns referenciais para, em seguida, perderem totalmente as que lhes sucederam na história).

Saímos do Século das Luzes Intelectuais, para atravessarmos dois grandes rios de sangue que embaçaram nossos olhos - e mudamos os nossos propósitos. Livros, artes, músicas, e até a nossa forma de sonhar e imaginar um Universo mais cientificamente romântico foram jogados por terra, em prol do cumprimento de tarefas.

Assim é que os personagens do filme vivem tentando consertar algo, ou formar laços entre si ou com outrem; expressam traumas e, apoiados nas cinzas de suas vidas e de uma geração brilhante que a Guerra destruiu, buscam reencontrar caminhos que os conduzam a uma chance - apenas uma chance - de ver, talvez pela última vez naquele século, o brilho do Espírito, com a sua inteligência, ser maior que o de monitores que conduzem toda a raça humana nos caminhos inventados nas placas de silício.

São 126 minutos em que cada segundo investido em focalizar um olhar, uma fala, um silêncio - e até a introduzir o filme antes de mostrar o seu nome (uma longa e apaziguadora introdução) - é bem empregado. Não perca a sua paciência com o filme. pelo contrário: aceite a provocação, pois você será muito bem recompensado por isto.

Acorde: enquanto você não for capaz de voltar a sonhar com a arte e a se conectar, de modo saudável, com as pessoas, você jamais poderá se gabar de ser capaz de fazer algo. Você não será capaz de fazer absolutamente nada - de útil.

Ah, uma última recomendação: se possível, vá assistir o filme sem ver o trailer. Permita-se ser totalmente surpreendido ao menos uma vez na vida - como era na minha infância…