Igor Prado Band caiu na Teia

Por Igor Férva e Lívia Gusmão

É hora de baixar as luzes e criar um clima mais intimista. Chega pra cá que agora o assunto é blues. E para quem acha que falar desse ritmo no Brasil é difícil, não conhece a Igor Prado Band, considerada uma das maiores revelações no gênero e, merecidamente, uma das melhores do país. Além do homônimo deste humilde repórter, Igor Prado, que é vocalista e guitarrista, a banda também conta com Yuri Prado (irmão de Igor) na bateria, Rodrigo Mantovani no contra baixo acústico e Denílson Martins no saxofone barítono.

Essa galera do ABC paulista – mais precisamente São Caetano do Sul- é tão boa, que no ano passado o álbum Brazilian Kicks, feito em parceria com o americano Lynwood Slim, foi o segundo mais tocado numa rádio especializada emblues no EUA. Três anos antes, em 2007, a banda já figurava entre as melhores do “mundo do blues” em eleições promovidas por duas revistas especializadas, a Real Blues e a Blues Matters. Além de Lynwood Slim, a Igor Prado Band já dividiu o palco com outros feras como Steve Guyger, R.J Mischo, Mark Hummel, Phil Guy, entre outros. Por email, Igor Prado, que também é  produtor musical, concedeu uma entrevista à Teia Cultural. Confira como foi o bate papo:

TC – Há quanto tempo estão na estrada?

IP – Já está fazendo quase 11 anos.

TC – Qual foi a sensação de terem um álbum de vocês escolhido como um dos melhores do ano 2007 pelas revistas Real Blues e Blues Matters?

IP - Primeiramente foi uma surpresa. Esse disco foi feito com muito zelo incluindo gravações de 2005, 2006 e 2007, várias participações especiais, saxofone gravado em Los Angeles por um dos mais respeitados músicos da cena de Los Angles, quando saiu o disco e recebemos todos esses prêmios. Foi como uma sensação de dever “mais” que cumprido.

TC – Como você encara o cenário brasileiro para o Blues?

IP - Ah, eu acredito que está crescendo, há alguns anos estava bem pior, mas os festivais estão surgindo o respeito e o intercâmbio com músicos e festivais de fora por artistas brasileiros está crescendo como nunca. Eu vejo um lance positivo na cena atual. Espero que continue nessa crescente.

TC – Sente falta de maior reconhecimento no Brasil?

IP - Eu sinto falta de maior exposição, o reconhecimento a gente tem, mas para termos reconhecimento precisamos ter mais alcance. O que essa geração nova do blues está fazendo é histórico. Estamos dividindo atenções em grandes magazines e da mídia especializada americana, isso já é fato consumado.

TC – Quem são os músicos que mais influenciam a banda?

IP – Putz, são muitos. Impossível descrever tanta coisa e não só do blues, estamos ouvindo muita coisa de rhythm bluesfunk e soul music atualmente, mas claro sempre com o blues tradicional na base de tudo, disso não tem como a gente se distanciar.  Aprendemos a tocar guitarra, baixo e bateria só ouvindo, estudando e tirando esse tipo de música. É impossível não ter a cara blues até quando eu toco “terrivelmente” uma bossa nova (risos).

TC – Nestes anos na estrada, tiveram alguma apresentação que julgam como inesquecível?

IP – Ah teve várias coisas legais, mas uma das mais foi o Doheny Blues Festival, considerado hoje um dos 3 maiores dos EUA, dividimos a noite com Kim Wilson, Robert Cray, The Black Crows e Crosby, Still & Nash. Parecia um sonho.

TC -  Você acha que algum dia o blues voltará ao mainstream?

IP - Acredito que hoje em dia exista um gênero bem definido e enlatado que podemos chamar de “Gênero mainstream“, todas as bandas, soam muito parecidas para aquele tipo de estética de rádio, TV e MTV. Tudo tem a mesma cara, mesmo sendo rock, rhythm blues e  até o rap.

E não é só o blues não, mas as músicas realmente de raiz, citando aqui no Brasil, o choro, o samba de raiz e a bossa nova não voltarão ao mainstream. Essa é minha humilde opinião diante no cenário musical brasileiro e mundial.

TC – No ano passado a álbum de vocês, “Brazilian Kicks”,  chegou a ser o segundo mais tocado numa rádio americana especializada em blues. Certo? Você esperava tamanho sucesso?

IP - Na verdade ele chegou a ser o segundo mais tocado em todo o território americano. A revista Living Blues tem um chart que pega os principais programas de rádio dedicados ao blues de todo o EUA e alguns da Europa também. Pra gente foi a maior surpresa e, com certeza, um dos pontos altos da nossa carreira. Um feito histórico para uma banda de blues da América do Sul.

TC – Já compôs ou já pensou em compor alguma música em português?

IP - Eu já pensei, mas ainda não tenho essa habilidade em compor blues em português. É muito difícil de  passar uma mensagem legal em português dentro dessa estética, mas tem uma galera aqui no Brasil que faz isso muito bem.

TC – Algum músico, ou alguma música, genuinamente, brasileira influencia a banda?

IP – Ah, existem vários, não temos nenhum tipo de preconceito musical, amamos nossa música brasileira. Eu especialmente tenho uma paixão pelo choro , apesar de não tocar nada, porque eu cresci ouvindo meu pai e meu tio tocando choro na sala de casa, então isso é muito forte dentro de mim, mas também enquanto eles não tocavam, meu pai colocava na vitrola, Little Richard, Chuck Berry aí deu no que deu (risos).

TC – Muitos especialistas os consideram uma das maiores revelações blues dos últimos anos. Como encaram este peso e esta responsabilidade?

IP  - Ah, pra gente é uma honra, é o que fazemos desde muito novo, colecionamos álbuns, sempre estamos tentando escutar e absorver tudo dessa linguaguem que é o blues tradicional, tão vasta, extensa e difícil, como um tio meu fala: “Se você quer isso para sua vida, viva essa música intensamente”. A gente tá sempre ouvindo descobrindo e estudando o blues tradicional e absorvendo o máximo o possível com os músicos americanos mais velhos que têm tanta coisa para contar e passar.

TC – Quais os planos para o futuro?

IP - Estamos numa vibe bem rhythm blue & soul atualmente, fazendo esse mix com o Blues. Estou trazendo para o Brasil uma cantora negra de soul chamada Tia Carroll, ela é uma das novas sensações desse meio underground da black music, e também o saxofonista Sax Gordon Beadle outro “monstro” que já tocou e gravou com praticamente toda a velha guarda do blues e rhythm blues. Estamos envolvidos juntos num projeto de um DVD/CD fazendo um tributo aos mestres da soul music erhythm blues.

TC -  Se todos estivessem vivos e você pudesse escolher apenas um para dividir o palco, quem escolheria? Robert Johnson, Muddy Waters ou BB King?

IP – Nossa, pergunta difícil. Mas responderei: RAY CHARLES (risos)!

Uma teoria brasileira para o blues e o hip hop

Por Igor Férva

Com a folkcomunicação, Thífani Postali desvenda um pouco da cultura musical dos negros norte americanos desde o séc XX até os dias atuais.

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Uma obra que une o útil ao agradável. Foi isso que a sorocabana e nossa colaboradora, Thífani Postali, 28, conseguiu ao escrever  Blues e Hip Hop – Uma Perspectiva Folkcomunicacional. Neste livro, essa publicitária, que também é  mestre em comunicação e cultura, conciliou suas duas paixões – Comunicação e música – pois Thífani nas horas vagas canta e toca violão. Na obra de 192 páginas, que tem os selos  da PACO Editorial e da EDUNISO (Editora da Universidade de Sorocaba), a autora utiliza todo o seu conhecimento sobre folkcomunicação ( Teoria de Luiz Beltrão, que estuda a comunicação dos marginalizados ), adquirido em seu mestrado,  para analisar como o blues e o hip hopsurgiram e modificaram o modo dos negros americanos se expressarem e como ganharam força através destes estilos musicais.

IF – Há quanto tempo você faz pesquisas sobre folkcomunicação?

TP – Iniciei os estudos em folkcomunicação há, aproximadamente, três anos.

IF – Como e quando surgiu a ideia de fazer um livro que junta a teoria da folkcomunicação com o hip hop e o blues?

TP - No Mestrado em Comunicação e Cultura eu já estudava o blues e tinha a intenção de juntar a ideia ao hip hop. Foi procurando estudos que me dariam suporte científico que encontrei a folkcomunicação. Então pensei na seguinte ideia: Estudamos tantas teorias de “fora” para entender as manifestações culturais brasileiras,  por que não utilizar a única teoria da comunicação brasileira para entender as “de fora”? Defendi a dissertação em setembro do ano passado e, na semana seguinte, apresentei um artigo na INTERCOM (Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação). Conheci no congresso a professora Dra. Maria Érica de Oliveira, que faz parte da Rede Folkcom. Interessada pelo assunto e conteúdo da pesquisa, incentivou a publicação da obra dizendo sobre a importância das publicações na área. E a ideia se concretizou nesse momento. Até então, eu não tinha a intenção de publicar.

IF – Você sempre gostou de blues e hip hop?

TP - Sempre gostei de blues. Amo o blues! Gosto do rap, mas no viés comunicacional, admiro o seu propósito. Mas não decidi estudar esses gêneros musicais por questão de gosto pessoal. Parti dos estudos da comunicação, para então pensar na proximidade de ambos.

IF – Quanto tempo demorou para escrevê-lo?

TP - Escrevi enquanto estava no mestrado – trata-se de minha dissertação. Contando desde quando comecei a pesquisar, aproximadamente, três anos.

IF – Como você classificaria o seu livro?

TP – Trata-se de um estudo acadêmico que tem como objetivo incentivar e divulgar os estudos na área da folkcomunicação. Também pode ser interessante para músicos e demais amantes da música, pois aborda parte da história social dos afrodescendentes e do surgimento das manifestações. Ou seja, explica os discursos do blues e do hip hop.

IF – Na pesquisa para fazer o livro teve alguma coisa que te surpreendeu mais? O que?

TP - A pesquisa nos leva. Temos uma hipótese, mas ela pode não ser comprovada, essa é a questão. Eu sempre acreditei que o bluespossuía discurso de resistência, crítica social, mas durante um momento não encontrei letras que expressavam isso. Fiquei decepcionada na verdade, pois lia nas referências que era crítico, mas quando ouvia, não encontrava. Foi então que me deparei com uma entrevista de um bluesman chamando Willie King que clareou tudo. Ele dizia que a maioria dos bluesmen cantavam sobre as suas garotas mas, na verdade, estavam falando de seus chefes. Por exemplo “minha garota é tão cruel. Ela me maltrata e acaba ficando com todo o meu dinheiro”. Se trocarmos a palavra garota por chefe, a verdadeira mensagem aparece! Após isso, a minha hipótese voltou a fazer sentido. Creio que esse “achado” foi algo muito significativo para pensar o Blues que, diferente do Rap que explicita as ideias, possuía um discurso camuflado por segurança.

IF – Você sabe me dizer se este é o primeiro livro de folkcomunicação onde os temas abordados não são de origem do folclore e da cultura do Brasil?

TP – Folkcomunicação, segundo Luiz Beltrão, idealizador da teoria, é o estudo da comunicação dos marginalizados. Cabe esclarecer que a palavra marginal não se refere aquele sentido pejorativo, que a relaciona a delinqüência. Existe toda a teoria da Escola de Chicago por trás disso. Marginal é o indivíduo inserido em duas ou mais culturas. O caso dos afro descendentes é um exemplo. Para ilustrar, o próprio blues é a junção da cultura africana e da estadunidense. Então o marginal é uma pessoa que manipula culturas e, em muitos casos, cria outras. Portanto, a folkcomunicação vai muito além do folclore. Agora, quanto a ser uma publicação que estuda uma cultura “de fora”, creio ser a primeira obra tendo as manifestações culturais estadunidenses como objeto de estudo. Artigos apresentados em eventos e coletâneas são possíveis encontrar. Mas publicação de obra, creio ser a primeira.

IF – Pretende escrever outros livros daqui por diante?

TP – (Risos) Vamos ver o resultado deste. Pretendo dar continuidade ao estudo em doutorado, mas não tenho nada confirmado ainda. Quero respirar um pouco. (risos). Também tenho ideias para outras obras sempre relacionando a esse primeiro estudo. Gostaria muito de abordar o assunto em minha cidade, que é Sorocaba,  tendo as manifestações sorocabanas como objeto. Eu adoraria fazer isso, pois Sorocaba possui um material interessantíssimo quando se trata de hip hop.

Moska: Pouco para tanto, Muito pra tão pouco

Por Ithalo Furtado (perguntas e crônica) // Foto: Divulgação

 

Novo. Novo de novo. + novo de novo.

Primeiro o preto, depois o branco, e enfim, um abraço homônimo. Uma pergunta se buscava, silenciosamente, na porta entreaberta do meu senso. “Que lugar é esse?”

Sabe quando você acorda com a sensação de que esqueceu alguma coisa muito importante?

Quando ultrapassei o limite da primeira porta, as cores surgiram, vazias de timidez. Me dei de cara com um lugar terrivelmente maravilhoso e, por um momento, achei se tratar de um sonho. Um sonho de luzes, inflamado de instantes espelhados.

“Meus olhos famintos não se cansam de te acariciar…”
Um som radiofônico me fez sentir inabitado, inverossímil. Ao meu redor, vários espelhos que mais pareciam olhos de vidro ou mesmo lágrimas de diamantes.

Me acomodei na cadeira que havia no centro daquele espetáculo vazio, onde o silêncio era o ator principal.

Nada como ter o mundo de volta.

Zoombido.
É lá que eu estava. No meu próprio programa. Sendo entrevistado por mim mesmo. A outra parte deste animal feroz. A metade inundada de dúvidas sobre a outra metade. A fração, o rabisco, o muito e o pouco.

Não parecia loucura. Nada parece loucura diante da beleza.

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1 – O que é preciso “para se fazer uma canção”?
Vontade e Verdade.

2 – A canção te encontra mais do que você a procura?
Quanto mais eu a procuro, mais ela me encontra.

3 – Como foi a transição do Inimigos do Rei para ser unicamente Paulinho Moska?
No “Inimigos”, aprendi a celebrar o palco de maneira divertida, coisa que trago comigo até hoje, mesmo quando canto canções aparentemente tristes.

O Inimigos do Rei foi um grupo criado numa escola de teatro…e eu me sinto um ator no palco, interpretando um texto cantado.

A transição foi natural, mas como tudo na vida, trabalhosa e escorregadia. No início rolava um pouco de preconceito por eu estar querendo fazer uma musica “séria” depois de ter estourado numa banda de humor, mas aos poucos fui conquistando a credibilidade das pessoas.

O tempo é o maior dos juízes. Eu não me acho “sério”. Me divirto muito com o que faço…não sofro.

4 – Do “Vontade” ao “Muito Pouco”, o que mudou no processo de composição?
Antes, as canções saíam mais fáceis…parece que na juventude temos menos senso crítico e todo dia eu criava alguma coisa…não sei se eram boas…com o tempo, fui lapidando melhor minha linguagem e ao mesmo tempo encontrando dificuldades para terminar as canções, porque nos tornamos mais exigentes conforme vamos avançando. A chegada da fotografia digital foi um fator muito importante para essa definição…foi um encontro poético.

5 – E no Moska?
Acho que sou o mesmo, sempre diferente.

6 – O que é o “Muito” e o que é o “Pouco”?
Muito é o valor de uma vida e Pouco o julgamento que se faz dela.

7 – O que são as “Semicoisas”?
Semicoisas são as poesias e as belezas da vida. Às vezes chamamos também de “segredos”.

8 - “Soneto do teu corpo”, grande parceria com Leoni. De que lado partiu o idéia? Quem compôs a letra e quem compôs a melodia?
Letra safada do Leoni e musica tarada minha. Martnalia foi a melhor intérprete que essa canção poderia almejar.

moska9 – Como nasceram as canções do disco(Muito Pouco)? As canções de barulho nasceram no silêncio e as de silêncio nasceram no barulho?
Sua segunda pergunta seria a melhor resposta para a primeira…barulhos que nasceram de silêncios e silêncios que nasceram de barulhos. São canções acumuladas em seis anos de vida independente (depois de 13 anos contratado por uma multinacional/EMI). Minha independência trouxe uma diversificação nas minhas atividades: comecei a fotografar, criei um programa de TV/radio e viajei muito pela América do Sul. Fui compondo nesses intervalos , entre uma paisagem e outra, entre uma nova amizade e outra, entre um encontro e outro. Um grande privilégio poder criar um disco assim, sem data de lançamento, sem cobrança da gravadora.

10 – Por ser um artista contemporâneo, o que eu noto no disco é uma coisa meio múltipla. Os shows devem exigir tanto a alucinação quanto a mudez. São dois momentos. O Muito Pouco é sua afirmação como artista que transita entre diversos tipos de arte?
Nunca quis ser um especialista…a diversidade sempre me interessou…compor é juntar coisas…eu junto semicoisas (risos)!! Um pouco de poesia, um pouco de musica, de fotografia, de TV, de rádio…vou compondo uma linguagem que tem a canção como rainha. O Muito Pouco fala disso também…quanto mais eu faço, mais tenho vontade de fazer…e ao mesmo tempo sei que o pouco que fiz pode ser muito pra muita gente. Tudo é tão relativo…no show do Muito Pouco tento criar uma “desaceleração”…nesse mundo veloz, violento e competitivo, se a gente não desacelerar, a poesia não penetra nem brota.

11 – O artista contemporâneo se limita quando resolve se tornar um especialista?
O mundo hoje é um multimundo, com multilinguagens, multitempos, multipoesias, multiisemicoisas…o problema da especialização é que se aprofundando muito numa coisa você acaba não conhecendo nem um pouco das outras. Prefiro ser um “superficialista”, um “clínico geral”…gosto de abraçar o todo, de aprender o que uma prática pode fazer pela outra. Gosto de cruzar as experiências, de arriscar, de criar novos desafios. Encontrar novos paradigmas.

12 – Como vê o atual cenário da Música Brasileira? Os coloridos, a Nova MPB, a influência da Música Francesa, a internet?
Acho que a musica brasileira nunca foi tão brasileira!!! Hoje todos os estilos tem espaço: o sertanejo, o axé, o funk, a bossa, o rock, o forró, a balada romântica…tudo convive em harmonia e admiração. Misturas novas acontecem todos os dias e a internet é uma prova disso…o Brasil é o pais onde a idéia de globalização que invadiu o mundo nos últimos anos já rendeu frutos. Nós somos o resultado da mistura…aqui celebramos a diferença como em nenhum lugar do mundo. Nós somos o país do presente.

espelhos

Tempo.
Música.
Fotografia.
Notei alguns flashes que, despretensiosamente, apunhalavam as minhas reações, mais despretensiosas ainda. E o resultado de cada fotografia era simplesmente fantástico. As formas, as cores, a sinestesia e até mesmo o cheiro do instante eternizado.

Com o violão em punho, a expansão da sinestesia aconteceu. Não era somente eu quem conseguia enxergar as notas musicais. As fotografias espelhadas começaram a brotar naturalmente enquanto eu tocava a canção daquele encontro.

O Zoombido, programa que apresento no Canal Brasil, sempre me pareceu um sonho intenso demais para ser prolongado diante de cada artista. Era um momento ímpar. O que eu nunca imaginei é que um dia eu estaria no lugar daqueles que me respondiam e sendo entrevistado por quem estava: meu outro lado.

Parecíamos a nota e a corda duelando dentro do mesmo violão.

13 – E a digitalização da música? Essa facilidade que os instrumentos trouxeram. Ainda usa o analógico ou aderiu completamente ao digital?
O importante é ficar bonito no final. Costumo compor as canções no violão, com papel e caneta no colo, sentado no sofá. Depois gravo os instrumentos  de base (baixo, bateria…) juntos, de forma orgânica. Gosto da energia que rola quando  a coisa é real. Na pós-produção uso muita tecnologia…hoje podemos “ver” o som…isso é maravilhoso porque temos mais condições de fazer as edições necessárias…de dar um acabamento mais profundo. Mas continuo acreditando que nada supera o momento, a fotografia do instante. Se não começar bem, vai terminar mal.

14 – E a galera independente? Apesar a internet, ainda falta oportunidades? O que diria a eles?
Temos que inventar o novo mercado. Cada um tem que criar o seu próprio público, com ações de impacto. Esse impacto tem que unir talento, trabalho, idéia, frescor, intensidade…antigamente só havia uma maneira de alguém escutar seu disco: uma gravadora tinha que contratar e bancar o produto. Hoje muitos artistas gravam suas canções em casa, divulgam na rede, marcam shows e fazem negócios na web. Isso não existia quando eu comecei. Em compensação, a concorrência é proporcionalmente maior. Espero que a qualidade vença essa disputa.

15 – O que mais te encanta numa fotografia?
A composição…o equilíbrio entre os limites, a luz, o assunto, a intensidade, a expressão do olhar do fotógrafo.

16 – Como surge a inspiração para compor a partir de uma imagem?
Existe uma diferença entre uma foto e um retrato. Qualquer imagem capturada por uma câmera é uma fotografia. Um retrato é uma foto que atingiu um certo equilíbrio…ela grita, salta aos olhos, afirma-se nela mesma. Quando um retrato aparece pra mim, ele já vem com muitos sentidos…depois é só procurar palavras para descrevê-los.

17 – Pode citar algumas canções que nasceram a partir de fotos?
“Lágrimas de Diamantes” foi a primeira…”Pensando em Você” foi outra. “Tudo Novo de Novo” também…todas nasceram de retratos que ganharam nomes que inspiraram poemas que resultaram em canções. “Jardim do Silêncio” era o nome de um folder onde eu guardava fotos no computador…e “Reflexos e Reflexões” uma pasta de textos sobre as fotos.

18 – Qualquer calmaria ainda te da solidão?
Ando desacelerando a vida, procurando calmarias e momentos tranqüilos. Os furacões da introspecção me seduzem cada vez mais.

19 – E se fosse o “Último Dia” do Moska na terra, o que você faria, hein?
O que faço todos os dias…procuraria por felicidade.

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Solidão.
Calmaria.
Um móbile.
Os olhos vidram quando a razão não os alcança. De repente eu me vi sozinho novamente. Sem preto, sem branco, sem nem mesmo um abraço. Os espelhos foram ofuscando todo o espaço ao meu redor. O violão parecia ser engolido pelo chão. A música foi ficando cada vez mais ensurdecedora.

“Semicoisas”.

Acordei assustado. Na cama, suor e dormência. “Que sonho terrível!”. Às vezes, é difícil suportar o próprio corpo e aquela noite eu havia conhecido o meu dobro.

“Outras versões da verdade”.

Preparei um café bem forte. Tirei a barba. Conferi pela sétima vez a agenda de shows daquele mês. Fui até a janela pra sentir o sabor que o vento me trazia aquela manhã. Era o mundo voltando ao normal dentro de mim.

Foi quando avistei ao longe, como título da manchete da primeira capa do jornal lido pelo velho homem na praça, a minha dual verdade:

“Muito Pouco”.

Inspirado na Conversa entre Moska e ele mesmo no DVD “+ novo de novo”

Bruna Caram caiu na Teia!

Por Marcelo Rios // Foto: Divulgação

Posso dizer que, ao desembarcar em São Paulo, a trilha que me acompanhou até o hotel não poderia ter sido outra: “Fim de Tarde”, da Bruna Caram. Assim como nenhuma outra música poderia ter sido mais adequada, o que encontrei no final da tarde de terça-feira, em um recanto agradável e que resiste à cidade, foi uma equipe educada e uma moça serena no seu jeito de ser.

Bruna Caram é a fotografia de um tipo que só uma história como a sua é capaz de produzir – história rara e devidamente preservada pela moça, que faz questão de deixar tudo exatamente em seu lugar.

Ela com uma xícara de cereais – que permaneceu intacta até o fim da entrevista – e eu bebericando água boa e fresca. Tive o prazer de conversar com a Bruna por uma hora. No período, até as intervenções eram agradáveis: Ana, assessora de Bruna, da equipe da Perfexx, por vezes entrava e saía, sempre nos deixando totalmente à vontade para conversar. Por outro lado, uma simpática cadela latia e choramingava à porta, como que querendo participar da reunião.

Em suma: fui recebido com bons olhares, cumprimentos cordiais, sorrisos largos e o que de melhor aquela entrevistada poderia ter-me dado: um bom dedo de prosa e o alívio de perceber que, muito mais que “uma cantora da Nova Geração da Música Popular Brasileira”, Bruna Caram tem alma antiga, gostos refinados e um trato agradável que vem de muito, mas muito longe – e de um lugar muito profundo em seu espírito universalista. 

Marcelo Rios - Antes de vir para cá, li o seu blog e muitas entrevistas. Nelas você fala da sua história como integrante dos Trovadores Mirins, além de falar da infância com sua avó, fazendo brincadeiras ao piano. Poderia contar um pouco mais dessa sua relação com a sua avó e do que permanece, disso tudo, hoje?

Bruna Caram - Ah, legal – e eu acabei falando da minha avó antes de começar (risos)! As pessoas acham que eu sou muito mais próxima da minha avó do que eu realmente sou. Não é aquela “vó amiga”, que eu encontro sempre, mas eu tenho uma verdadeira adoração pela figura dela, pelo que ela representa para mim, pelas coisas que ela me ensinou. Aos 75 anos ela borda, pinta, costura; ensinou todo mundo a cantar e a tocar piano, sabe? Fez questão mesmo – e até hoje canta muito! Esteve aqui no meu último show, “Piano e Voz”, em São Paulo, deu uma canja no final do show… É uma pessoa muito viva, iluminada – artista mesmo, em todos os sentidos, e que embora não tenha sido uma cantora profissional (cantou profissionalmente por pouco tempo, nos anos 50) a “verdade” dela continuou. Por isso eu sempre digo que se algum dia ninguém quiser me ouvir, eu paro de cantar para os outros. Mas para mim mesma, eu sempre vou cantar.

A música faz parte da minha vida: é a maneira como eu vivo, como eu estou junto à minha família, como eu creio, como eu me sinto melhor (e até pior!). O que mais ficou da convivência com a minha avó foi essa fidelidade, de ter a música no sangue até o fim! Essa sinceridade e transparência, de mostrar o que o artista é pessoalmente e no palco.

MR - Eu vi o vídeo de vocês duas cantando “Azulão” e “As Cidades”…

BC - “As Cidades” que é uma música do Juca e do Eduardo Santhana, meus tios. São os mesmos compositores do “Fim de Tarde”, que está no disco novo.

MR - Enviei o vídeo para alguns amigos meus, e a carência que se tem de música boa é tão grande que, ao vê-lo, cada um de nós respirou aliviado.

BC - [sorriso largo]

MR - Algo que fica patente no vídeo é o modo como você se relaciona com esse “passado”: com respeito. O fato de ter participado dos Trovadores Mirins talhou em você um olhar diferenciado sobre a música em si? Afinal, dos artistas novos que estão despontando, você é das poucas – senão a única – que foi formada cantando serenatas…

BC - Houve muitas coisas que contribuíram bastante para me formar enquanto artista – e eu estou longe de estar completa. A estrada para eu vir à tona hoje como a artista que sou não passou apenas pelos Trovadores Mirins: teve a minha avó e também o meu avô, que é violonista, toca choro… Eu tento tirar um pouco essa idéia de que foi só nos Trovadores, sabe? Explicar que eu não sou mais uma Trovadora; que isso é uma parte importante da minha história, mas que hoje eu faço outro tipo de música.

Algumas pessoas ainda ficam admiradas [com a desenvoltura no palco] e é preciso saber que eu comecei muito cedo. É importante explicar toda essa história: embora eu não faça mais serenata, essa coisa “antiga” está comigo. Tem um depoimento que a Patrícia Palumbo [apresentadora do “Vozes do Brasil”, que vai ao ar na Rádio Eldorado e autora do livro homônimo, em dois volumes, sobre música brasileira] falou sobre mim, dizendo que “a Bruna parece uma menina antiga, novinha, mas tem uma bagagem e uma experiência que assusta a gente, a princípio”. Essa experiência de fazer serenata, especificamente, tem um lado de “cara-de-pauzice” (risos), espontaneidade e coragem que me fortaleceu muito.

Eu era muito tímida quando menina. Ainda tenho essa timidez, mas ela some no palco – até porque não daria para ser uma artista que sobe no palco com o microfone na mão e fica lá… (risos); não daria para fazer uma serenata – que é até pior do que show nesse sentido, pois para o artista, quanto mais gente melhor! É muito difícil ir até a casa de alguém, entrar e ter duas ou três pessoas apenas – e cantar olhando para uma só, sem a proteção do palco, da banda, do microfone… Todas essas máscaras que o artista pode usar não existem ali. Fiz isso por quase dez anos, dos nove aos dezoito!

Tudo isso terminou me deixando mais forte para subir ao palco, ter mais jogo de cintura. Lá nos Trovadores não existia problema: em tudo a gente dava um jeito. Olhar para o músico (o que fortaleceu a ligação com quem está tocando com a gente); abrir voz, que é algo super difícil – e eu lembro quando eu era criança e eu olhava meus tios abrindo aquelas vozes, e eu pensava “mãe, me ensina!”. Enfim, fui crescendo ali nos Trovadores e lidando com esses contratempos.

Assim como também existe a mesma situação e essa mesma força numa roda de choro, e que “meu vô” fazia desde que eu era menina. De repente eu queria entrar ali, na roda; queria cantar também! Lembro exatamente da primeira vez em que eu resolvi cantar ali e pedi para entrar, no meio da roda: foi aquele furor de estar com vergonha e ao mesmo tempo estar ali… Aqueles violonistas, músicos com décadas de experiências, me elogiando, me fez entrar nesse universo e, enfim… Tudo isso contribuiu para me enriquecer hoje.

O diferencial que me veio dessa formação é que hoje, ao estar sobre o palco, tento olhar para cada um; ter uma relação muito próxima com o público, seja pelo Twitter, Orkut, blog… Essa coisa aberta mesmo. E talvez isso seja raro em nossos artistas…

MR - De fato, é raro…

BC - Na serenata, o maior “prêmio” que o trovador pode ter é fazer a pessoa chorar (risos). Esse choro, para mim, é válido: quanto mais pessoas vierem me falar “Olha, eu chorei naquela música”, mais feliz eu estarei, melhor eu terei cumprido o meu papel.

MR - E entre a sua saída dos Trovadores e a indicação para o Otávio Toledo, o que aconteceu de importante?

BC - Ah, outras cantorias. Desde que entrei na parte adulta dos Trovadores, já sabia que queria ser cantora solo. E até nesse sentido foi uma experiência bacana, não apenas por ter que decorar muitas músicas, mas porque cantávamos pout-pourri – e aquilo já me incomodava, porque como eu queria dar o melhor de mim em cada música, se passávamos por uma música mais emocionante, eu precisava me recuperar antes de começar a próxima. Vi que não poderia trabalhar assim para sempre, que precisava ser uma cantora solo, para poder cantar e dar o melhor de mim em cada música.

Tive muitas bandas na escola, um trio em que eu cantava, com um amigo no violão e outro no sax – e que hoje virou uma formação maior que se chama “Pitanga e Pé de Amora”www.pitangaepedeamora.com.br (risos) – eu fiz parte da primeira leva do grupo. No cursinho para o vestibular, acabei entrando para a banda dos professores (mais risos). Onde eu estivesse, a coisa acabava virando música. Certa vez, mandaram um bilhete escrito “chama a Bruna pra cantar”. E foi aquela algazarra, né? O povo batendo na cadeira e dizendo “canta, canta, canta”! Resultado: virou uma farra, porque todo dia, no cursinho, eu ia a várias salas cantar, em várias matérias (risos)!

MR - Você pensou em fazer Arquitetura e também Psicologia. Por quê?

BC - Ah, no fundo eu não queria admitir que o que eu ia fazer era música. Não sabia se “valia à pena fazer uma faculdade daquilo”. Mas, ao mesmo tempo, já sabia o que queria fazer da vida. Então, para não admitir eu pensava: “Ah, não. Vou fazer outra faculdade e continuo cantando”. Mas, no meio do caminho, pensei: “Quer saber? Se eu fizer outra faculdade eu vou largar no meio”. Busquei as faculdades que tinham mais ou menos essa área: canto, licenciatura em música, e descobri esse curso de Educação Musical – que, na verdade, quando eu prestei o vestibular era “Educação Artística”.

Isso porque queria ter contato com as outras artes, não queria só fazer música. Queria trabalhar com música, artes cênicas, artes visuais, todas essas coisas. Mas assim que passei no vestibular, em 5º lugar [e aqui Bruna sorri e dá aquele olhar de quem diz “Viu só? Quinto lugar!”], o currículo mudou e virou Educação Musical desde o começo. Então eu já entrei fazendo o curso de música – e que não era exatamente o que eu pretendia fazer – mas foi um jeito de unir áreas que me interessam, como a Pedagogia. Adoro criança, e penso em fazer um trabalho nesse sentido, cantar para crianças… Já me formo esse ano e, embora não saiba exatamente como vou usar o que aprendi, com certeza é uma experiência válida.

Tive também outra banda, composta em parte por músicos que vinham de fora do país e que estavam de férias. Era uma banda “tipo a da Elis” (risos), segundo o cara que me ligou e aí ele perguntou:

– Você quer?

– Quero! (risos)

– Olha, a gente não tem nome pro grupo, você se incomoda se for “Bruna Caram e Grupo”?

Respondi que não, que eles é que teriam de se incomodar, se fosse o caso. Tocamos por dois meses, no meio do ano, no Blém Blém, aqui em São Paulo. Isso me marcou muito porque eram músicos maravilhosos, de fora, e ainda escolheram meu nome para ficar na frente do deles (risos).

MR - Desde quando você está em São Paulo?

BC - Eu nasci em Avaré, mas sempre morei aqui. Meu avô é médico e ele que fez os partos da família inteira. Acho que de 90% da cidade, o parto quem fez foi ele (risos). Só que eu nasci de sete meses, não deu tempo dele chegar e quem fez foi a minha avó… Talvez por isso [a afinidade], não é? (risos)

MR - Os seus dois discos são muito bons. Mas você observou algumas vezes que, no segundo, ele saiu mais do seu jeito. Quando você entrou no projeto do “Essa Menina”, já pensava em fazer o que fez no “Feriado Pessoal”, ou ele ainda reflete uma Bruna mais ligada a um tempo passado?

BC - Na verdade, o primeiro CD não está relacionado com aquilo que eu fazia antes. Aquele primeiro CD já foi uma ruptura.

MR - Não falo em relação aos Trovadores, mas em relação ao que você já vinha querendo fazer em termos de carreira.

2006BrunaCaramBC - Eu não tinha o menor plano de gravar um disco, na época em que o Otávio me convidou – e nem sabia como funcionava a produção de um disco. Simplesmente, um compositor me conheceu, me entregou músicas todas inéditas dele e me falou “Olha, me liga se você gostar”. Foi por causa de uma música, que é “Sensação”, que eu resolvi gravar o disco. Eu disse “Olha, as outras eu não sei, mas essa música é minha!”.

MR - E é a música mais minimalista do disco…

BC - … e a primeira que gravei. Ali, no caso, tem um compositor só, com a obra dele, com um produtor que ele já tinha escolhido – mas com quem eu me dei muito bem, que é o Alexandre Fontanetti. Tanto que ele produziu o meu segundo disco. Tudo isso também interferia no resultado: era a minha parte, a parte “Otávio”, a parte “Fontanetti”… Mas fiz questão de participar de tudo, de maneira que o disco saísse com a minha cara.

Mas essa cara que saiu não foi a que se previa: as pessoas me conheciam cantando samba antigo, com o meu avô; o Trovadores Urbanos é um grupo de resgate, etc. Não era nada assim “pop”, como foi. E o resultado foi que eu me descobri num gênero que eu não sabia que combinava comigo.

MR - Então você não pensava em fazer exatamente esse segmento…

BC - … eu pensava “MPB”. Mas “MPB” é um leque. Eu não tinha essa preocupação de pensar em um nicho, ou um nome para o gênero que eu queria gravar. Simplesmente ouvi as músicas, falei “gosto”, adorei o resultado… E também nem acreditava que eu já estava ali, com meu disco…

MR - E qual a reação ao ver o disco pronto?

BC - Ai, chorei sem parar! Hahahahahaha! Escutava e chorava! No segundo disco, eu abria um a cada cinco minutos: tirava da caixa, abria… (risos). Mas foi só no segundo disco que vim criar um projeto inteiro, pensar o que eu queria naquele momento. Mas não digo “meu gênero é ‘tal’ e pronto”. Se amanhã ou depois eu quiser gravar um disco de rock ou de valsa, para mim não tem problema nenhum. O importante é seguir a minha identidade, só.

MR - Em uma das suas entrevistas, você colocou uma frase que me é interessante, dizendo que gosta mais de gravar autoral, pois é uma garantia de que, se as pessoas conhecem aquilo ali, só pode ter sido através de sua voz. Qual a sensação de levar algo novo para as pessoas?

BC - É a sensação de fazer a diferença. De entregar uma coisa que as pessoas estão procurando de fato. Quando ouço na rádio uma cantora, cantor ou um grupo, enfim, cantando algo que já conheço e a gravação não me chama a atenção, eu nem quero saber o nome da pessoa. Nem paro para ouvir. A música termina permanecendo maior do que a versão.

O mais bacana de tudo é a pessoa parar e dizer “Nossa, que é isso? Como é o nome dessa artista?”, sabe? Esperar no rádio para ouvir o nome, a expectativa do “quem será?”. E meu trabalho começou muito assim. No primeiro disco, eu recebia muitos emails do tipo: “Ouvi na rádio, fui procurar e não achei, ouvi mais e não achei…”. No início não tinha uma produção como tem hoje, um site, etc. Foi boca a boca que as coisas foram crescendo – e se foi crescendo é porque algum diferencial foi visto pelas pessoas.

Nas primeiras vezes que cantaram junto comigo “Palavras do Coração” foi um negócio… Certa vez estávamos eu e o Otávio lá na FNAC e ele pediu para o cara colocar o disco para tocar. Daí começou e a gente ficou assim, no cantinho, vendo as pessoas mexerem nas prateleiras e cantarolarem baixinho a música (risos). Daí ele falou “Tá vendo? O povo sabe cantar. E se eles estão sabendo cantar, é porque ouviram você”. Isso é a glória, assim como também é ótimo levar o nome de um amigo, cuja música escutei em casa, para o Brasil inteiro conhecer. É demais… É muito mais significativo que pegar uma música já conhecida – que também é legal, também é emocionante – e dar uma cara nova.

Ter essa ferramenta de contatos e amigos que te entregam músicas e te dão de bandeja essa oportunidade de criar junto: isso não tem nome…

MR - Como é que seu disco chegou lá no Japão?

BC - Através da minha gravadora, a Dabliú. Eles conseguiram um contato, mandaram o disco, a JVC gostou e se tornou a “minha gravadora” lá. Lançou meu disco, tocou nas rádios, teve show aqui em São Paulo em que tinha gente de lá, e tal. Recados pelo MySpace… Não aconteceu ainda de eu ir para lá, ainda não tive esse privilégio. Mas se Deus quiser, iremos! (risos).

MR - O que te chama atenção em uma canção?

BC - A letra. Só a letra (risos). Até já falei sobre isso uma vez. Se a música for repetitiva, a melodia for “ok”, se tudo for mediano e a letra for maravilhosa, eu pego. Se a melodia for maravilhosa, a harmonia for incrível, for tudo genial e a letra for ruim… Já era. Eu tenho uma relação com a letra que é de unha e carne: por mim eu “falaria” a música, em alguns momentos. No show “Piano e Voz” – que é um show novo que a gente lançou mês passado, em São Paulo – tinha textos também.

A música, para mim, é o texto cantado. A melodia é importante, é essencial, mas está em função do que a letra tem a dizer. Todo o trabalho de interpretação, de expressão, de teatro de um ensaio mesmo de canto, é para poder dar a intenção certa a cada letra. Se eu estiver me matando para a nota sair daquele jeito, é porque a letra me pediu. Senão, bastaria fazer um “aaa” fraquinho e pronto (risos).

Marcelo: Então você gosta de saraus…

Bruna: Gooooosto! Hahahahahaha!

Marcelo: Já que você tocou no assunto, no seu blog você conta quando estava na aula de balé e uma professora da escola usa uma música sua para uma coreografia. E você disse mais cedo que gosta de trazer coisas novas para as pessoas. Então eu pergunto: porquê reler aqueles artistas; e qual a sensação de ser relida em movimentos?

Bruna: Uau… Duas perguntas bem diferentes! Primeiro, de reler os grandes compositores. Na verdade, as músicas acabam nos escolhendo e não tem jeito. Já disse que prefiro gravar canções de pessoas desconhecidas ou canções pouco conhecidas, mas no “Feriado Pessoal” a primeira coisa que escolhi foi quais seriam as regravações. “Quem sabe isso quer dizer amor”, que inclusive abre o disco, era uma música que estava em todas as minhas listas que eu já vinha fazendo há meses, para um possível próximo disco! Eu tinha papéis e papéis que eram sempre uma lista riscada e “Quem sabe isso quer dizer amor” destacada em algum ponto.

Depois veio o Costa Neto, que é o letrista, inclusive, de “Palavras do Coração”, e me mostrou a gravação do Guilherme Arantes de “Cuide-se bem”, que tinha uma relação com “Palavras do Coração”, porque brincava com aquilo do “sorriso largo” – que virou até um mote no primeiro disco. Como a gravação do Guilherme era muito antiga, resolvi tentar gravá-la de novo, porque imaginei que um adolescente de hoje que a ouvisse provavelmente ia falar “ai, que chaaato” ou “ai, que feeio..” e falar isso de uma música tão linda… Além disso, não tinha nenhuma outra gravação dela.

Já “Gatas Extraordinárias” veio por último. É uma música que eu cantava desde 2006, na banda de que te falei, era um grande sucesso – e meus amigos sempre diziam “Olha, você vai gravar ‘Gatas Extraordinárias’, né?”.

MR - E “Canário do Reino” terminou não entrando…

BC - Pois então: tentamos gravar essa. Gravamos no estúdio, para estudo, todo mundo ao vivo, e não gostamos do resultado. Foi justamente aí que veio “Gatas Extraordinárias”, porque precisava achar uma música que fosse tão boa, tão animada e dançante, e que combinasse com o disco. Aí lembrei dela…

MR - E ser relida?

BC - Ser relida é IN-CRÍ-VEL! Essa história que você contou, da dança, é interessante porque é ser relida em outra área, outra linguagem. Eu simplesmente estava dançando, na minha aula de balé, e tive a sensação – a sensação – de que eu estava ouvindo alguma coisa familiar. Estava lá, dançando e falei “Nossa, que estranho… Tem alguma coisa familiar…” (risos). Parei e a minha professora até ficou assim meio que sem entender. Fui até a janela e olhei para a sala de baixo: estava a música tocando e todos dando tchau pra mim (risos)!

Mas nem vi a dança pronta: eu só vi a Tati ensinando os passos. Ela falou depois que ama essa música e chora toda vez que ouve, e que quer dançar com essa música até o fim deste ano, nem que seja um solo! Nossa… Acho que quando eu vir isso… Eu vou morrer! Não é só por ser relida, mas porque são duas paixões minhas – a dança e o canto. Claro que o canto vem em primeiro lugar, mas a literatura e todas as artes, para mim, têm uma coisa muito forte. Até desenhar, que é algo em que nem tenho mais prática, mas que amava quando era menina, faz parte de mim de alguma maneira.

Então ver alguém dançar uma música minha, que eu gravei sozinha, e que eu lembro do dia em que o Dani Black me mostrou a música, que eu pedi a ele e ele não me deu! – e só foi me dar no dia em que a gente cantou junto na casa do Pedro Altério (um outro compositor) – eu tenho até gravação disso até hoje, todo mundo dizendo “nooossa, maaano” (risos) – e no final ele falou “E aí? Qual que você vai gravar minha?”. Eu falei “Eu quero essa, Danieeel, por favor!” e ele falou “É tua, tá!” (risos). Tudo isso vem à tona quando se é relida.

Já aconteceu também de outros amigos cantarem uma música minha em um show. Já cantei com a Trupe Chá de Boldo (http://trupechadeboldo.com/), que é um grupo aqui de São Paulo, também de amigos meus, e que chamei para gravar um clipe comigo – vê lá, é no www.musicadebolso.com.br, que é um site que faz clipes em lugares inusitados com o som ao vivo mesmo e sem corte, sem nada, coisas de brincadeira. Eu resolvi gravar numa loja de fantasias um frevo que eu fiz. E a Trupe Chá de Boldo é uma banda carnavalesca, de certa forma…

MR - Você gosta muito de Recife, não é?

BC - Apaixonada… (risos)

MR - Por qual motivo?

BC - Porque eu fui para lá alguns anos e me encantei de tal jeito que eu vou pelo menos uma vez por ano.  Fui esse ano, no Carnaval, uma semana antes e saí no meio do Carnaval para curtir… É como a minha segunda cidade, como se eu tivesse nascido lá.

MR - Recife e São Paulo contrastam bastante…

BC - Acho que é por isso que eu gosto de lá… (risos) Eu gosto de São Paulo porque é a minha casa. Se não morasse aqui, talvez eu não gostasse.

MR - O que é que tem de São Paulo na sua música?

BC - Minha música é urbana, não tem jeito. A maioria dos compositores que gravei é daqui; meus encontros com eles são aqui… Meu ambiente musical é São Paulo, e eu fiz esse disco pensando na pessoa que vai estar no carro, ouvindo no meio do trânsito. Até “Fim de Tarde”, que eu comentei com você, o que eu mais gostei da música é que muita gente vai se identificar com isso: vai estar no carro, na hora do rush, indo encontrar alguém! Isso é pensando em São Paulo… Não sei se em todos os lugares alguém vai estar no trânsito, e tal… De repente “Caminho pro Interior” seja mais a cara de outros, mas o que me falou mais alto foi tudo isso. A capa do disco é no alto do Copan… Eu tenho um amor por São Paulo como se tem amor pela sua casa: você xinga, briga e fala… – mas ama.

MR - Nesse mesmo texto do blog você vai adiante e fala sobre a arte ser universal. Tem outro texto em que você fala que o ponto não é ser uma artista de música brasileira, porque a música é universal.  Em sua opinião, de onde vem essa arte? Onde está esse dínamo?

BC - Acho que a arte existe desde que existe o Homem. Desde as mais primitivas, qualquer comunidade humana expressa algum tipo de arte. Estou lendo um livro chamado “A necessidade da arte” – e eu a considero não apenas necessária, mas uma questão de sobrevivência. É necessário criar, ser útil. Não se vive sem música, sem dança; e quanto mais primitiva é a sociedade em questão, parece que mais arte tem. Índios: cantavam, dançavam, escreviam da maneira deles, desenhavam… Todos! Não tinha um grupo que não manifestasse isso.

Hoje a gente divide entre “o músico de verdade”, “o músico profissional”, ou “o músico de brincadeira”, mas todo mundo canta no chuveiro (risos). Aposto que se você for ao interior do interior de lá de longe, ao chegar lá, vai ver que eles cantam, que têm alguma vivência cultural. É arte, de qualquer maneira…

MR - Através do seu blog, você tem o costume de homenagear os recém-nascidos da família.

BC - Hahahahahaha! É sim!

MR - Além disso, tem o fato de você gostar de trazer coisas novas para as pessoas. O primeiro disco abre com uma vinheta de “Amanheceu”…

BC - … que eu pedi por isso: para ser uma abertura…

MR - … e tem algumas outras canções, como “Alquimia”, em que você fala sobre revolução. Qual a sua relação com a transformação?

BC - Eu acredito em uma revolução silenciosa. Tem uma frase do Guimarães Rosa – sempre o Guimarães Rosa, para mim – que é: “Tudo o que muda a vida, vem quieto, no escuro. Sem preparos de avisar”.  Acho que meu objetivo com a minha arte, bem no fundo, é fazer com que as pessoas sejam mais musicais; que as crianças tenham a mesma infância musical que eu tive; que elas possam brincar de música e que as mães cantem pros seus filhos. Que o público queira escolher melhor o que escuta, que preste mais atenção e que não aceite qualquer coisa. Que procure entender melhor; que mesmo que não queira ser artista ou especialista, mas que saiba o que é que está ouvindo e porquê. E se vai indicar para outra pessoa, que saiba o motivo; que reflita sobre o que lhe encantou naquele cantor ou naquela banda, ou naquele livro, enfim. Que exista uma reflexão sobre a arte e que, por essa reflexão, ela volte a fazer parte do cotidiano com mais força e com mais consciência, principalmente. Pode parecer pretensioso… Mas é um sonho, e não uma pretensão.

MR - De qualquer modo, ninguém transforma ninguém…

BC - … mas a arte tem essa força.

MR - Então o seu papel seria oferecer material para isso…

BC - É. Considero que não importa o tipo de música que a pessoa goste, ou que ela escute. As pessoas são inteligentes – e não burras. Quando colocadas em contato com uma coisa rica, elas sempre saberão que aquilo é rico. Não tem problema se você quer ouvir sertanejo, funk do morro ou qualquer outra coisa, desde que você conheça mais que isso. É preciso respeitar o gosto da pessoa, porque aquilo faz parte da vida dela – e se a trilha sonora da minha vida for um tipo de música que você acha ruim (coisa que não existe)? Então, a questão é conhecer, para poder escolher.

Quando as pessoas não têm chance de conhecer é que surge a ignorância; é esse fechamento… Se ao menos eu provocar uma abertura… O meu maior triunfo é quando eu recebo um email de alguém dizendo “Olha, eu gosto de rock’n roll, mas eu gosto da sua música”, ou “eu gosto de punk rock, mas eu adorei sua música”, ou “eu não gosto de MPB, mas eu adorei sua música”. Isso, para mim, já é uma revolução, mesmo que pequenina, mas que eu fiz dentro de uma pessoa que se abriu.

MR - Você fala de ter acesso à informação e manifestar sua arte. O que você gosta de ler?

BC - Gosto principalmente de literatura – e nacional. Hoje tento me abrir um pouco mais, porque passei por uma fase bem patriótica, em que não ouvia música de fora – e hoje em dia isso mudou completamente, mas me esforcei para mudar. Parei pra pensar e poxa, que vergonha! Uma cantora ficar nessa de “Ah, eu só conheço MPB”, ou “conheço todas as décadas, mas só do Brasil”? Não.

MR - E não condiz com aquele pensamento de ser universal, não é?

BC - De jeito nenhum! Na época de escola eu me envergonhava por não conhecer as coisas. Então, hoje tudo o que eu ouço sobre música, eu dou um jeito para conseguir conhecer. Já na área da literatura, também tento mudar um pouco, mas faltam referenciais. Eu leio um autor e acabo buscando mais coisas dele, e tal. Mas aqui do Brasil, os autores que eu mais li foram Guimarães Rosa e Machado de Assis.

MR - Do que já leu, quais as idéias mais fortes e que permanecem até hoje?

BC - A questão é que em ambos – Machado de Assis e Guimarães Rosa –, o enredo nunca me interessou. O que me interessa é a poesia com que eles falam. Como aprendiz de escritora, entender de que maneira eles contam a coisa mais simples de um jeito incrível. Vejo que, quando eu leio um livro, mudo a minha maneira de escrever. Então tento equilibrar essas leituras. Se estou lendo muito Guimarães Rosa, ou se acabei de ler, procuro ir para o outro lado. Por exemplo, acabei de ler a biografia da Carmem Miranda – e não leria outra biografia nem que me matassem, agora (risos). Tem que ser outra coisa, para balancear um pouco essas influências. O que mais me encanta em Machado de Assis e Guimarães Rosa é o fato de um ser mais poeta e o outro, prosa. Por isso me interessam ambos: porque me transformam de maneiras diferentes.

MR - Já leu Castro Alves?

BC - Li, na época de escola, aquela mais famosa…

MR - “Navio Negreiro”

BC - É!

MR - O que achou?

BC - Amei de paixão, chorava muito… (risos) Eu era daquelas alunas “nerds do bem”, sabe? Gostava de fazer tudo certinho: eu lia em casa, chorava, me acabava e quando chegava na aula, a aula era normal… Eu ficava uma fera! “Como é que pode?! Eu nem vou falar o que eu achei!?”

MR - Você gosta de Pedagogia e se frustrava com as aulas…

BC - Até hoje, viu?

MR - Dentro da sala, a arte pode influenciar mais do que vem influenciando?

BC - Claro. Porque a arte traz um elemento que é exatamente o que está faltando: essa paixão, esse encantamento. Em geral, o professor passa o conteúdo, mas não passa a paixão junto. Lembro de aulas às quais assisti e fico pensando “Poxa, mas se o professor tivesse falado mais ‘assim’, eu teria prestado atenção e teria visto que isso ia ser importante pra mim!”. Se alguém ensina algo, tem que ser porque gosta…

MR - Já leu algo sobre Pestalozzi?

BC - Não.

MR - Ele fala sobre aproveitar o que aquele Ser já traz em si, de aproveitar as suas tendências. Afinal, ninguém vem “liso”…

BC - Com certeza. Ninguém vem “em branco”… Ninguém.

MR - Voltando um pouco: o que ficou de aprendizado da turnê do primeiro disco?

BC - Nossa, é tanta coisa… No meio da turnê eu chamei um diretor para me ajudar. Ele escreveu um roteiro para mim – e aquilo mudou o show de uma forma absurda: bastou, em um dia, ele fazer o roteiro, que o resultado foi impressionante. Quando acabou a primeira turnê e eu gravei o “Feriado Pessoal”, chamei uma nova diretora para trabalhar comigo e é uma coisa que ficou: eu nunca vou deixar de ter alguma direção no meu show.

bruna_caram_feriado_pessoalNesse disco novo, por causa da experiência com o “Essa Menina”, chamei uma diretora de teatro, que é a Cris Ferri, e passei a fazer aula de teatro, expressão corporal, mais balé, sapateado, e ainda aula de canto… (risos). O que ficou foi essa vontade de procurar mais maneiras de dar ao público o que ele merece. Eu poderia ficar naquilo do “cantar e as músicas serem boas, ok”. Poderia apenas investir em cantar cada vez melhor e não me preocupar com todo o resto. Mas não dá; é preciso procurar outros caminhos: é onde isso vira um grande filme.

MR - O que faz com que o segundo disco tenha mais a sua cara?

BC - Primeiro de tudo, o fato óbvio de eu ter escrito o projeto. Depois, porque tive todas as músicas do mundo para escolher, mas tive de ir atrás de cada compositor, o que foi um aprendizado e uma experiência muito bacanas. Esse trabalho de ligar, pedir uma música, e o cara ir vários dias na sua casa para mostrar uma música e outra… Tem uma música minha no disco!

MR - Que não é a sua primeira composição…

BC - Não, não é. Mas é um lado que até hoje eu mesma não admito muito. E isso meio que abriu minha cabeça: ao ver que as pessoas gostam dessa música, fica aquilo de: “Será que eu deveria compor mais do que isso?” Estou me aventurando mais…

Sempre tive uma vontade de trabalhar forte o meu lado intérprete. Só disso estar acontecendo agora, já faz o disco novo ter mais a aminha cara. A banda, a equipe, tudo: eu tive de montar uma equipe inteira, pois não tinha essa equipe no primeiro disco. Foi no “Feriado Pessoal” que aconteceu essa definição mesmo: quem será empresário; quem será produção; assessoria de imprensa; gravadora… Definir quem vai produzir o disco, e quem vai para a estrada…

Fiquei tão feliz quando você falou, pelo Twitter, que a equipe da Perfexx me representava super bem, sabe? Porque é muito difícil! Mudei várias vezes de empresário, de produtor, de banda – de tudo. Isso não é pra ser condenado: é difícil saber quem vai estar do seu lado, ajudando; confiar e acompanhar de perto para ver o que está acontecendo. Pode-se dizer que, nesse segundo disco, é uma artista com mais substância, com mais consistência.

MR - Temos pouco tempo e já fomos por tantos assuntos que eu preciso voltar para o roteiro pra gente continuar…

BC - É porque essa entrevista está boa (risos)!

MR - Como você não gostaria de ser rotulada?

BC - Estava pensando nisso hoje mesmo. Eu uso essas aparições, entrevistas e reportagens como uma escola: se sai algo de que eu não gostei, revejo e me pergunto se realmente deveria ter dito aquilodaquele modo. Hoje, já tenho alguns cuidados em deixar claro o que digo. Desde que algo seja dito de uma maneira carinhosa e respeitosa, não há problema.

MR - Hoje você usa melhor a tecnologia, não é? Redes sociais…

BC - Olha, eu aprendi porque é necessário. Mas é difícil para mim. Hoje foi a primeira vez que eu mandei um email para todo o mailing sem sofrer (risos)! Porque a questão é que eu não sei mexer nas coisas direito – tenho dificuldade mesmo.

MR - Da maneira como os arranjos são feitos e as músicas são gravadas, dá para perceber que você valoriza muito mais o instrumento real, em detrimento de recursos eletrônicos, usando-os apenas em instantes do disco. De onde vem essa preocupação?

BC - Vem do meu avô. Meu avô Jamil é um homem de oitenta e tantos anos que toca violão de sete cordas. Quando está tocando e alguém fala, ele bate forte o copo na mesa e grita “cala a boca”! Hahahahahahaha! A atenção que ele exige para se ouvir um instrumento é algo de que eu não posso abrir mão: dessa coisa humana. Eu acho tão lindo o meu avô batendo o copo na mesa e esbravejando contra todo mundo, sabe?

Além disso, não gosto de música eletrônica, essa é a realidade. No meu disco tem algumas coisas, mas é muito pouquinho. Tem também a energia musical da pessoa, que nunca virá pelo computador, não é? O que tem lá, no meu disco, tem certa energia, porque foi feito comigo. A gente se divertia ali no estúdio, na mixagem, criando isso; tem um trabalho humano ali – uma sintonia que fica registrada até o fim. Mas gosto mesmo do silêncio. Então, preciso valorizar cada instrumento e cada pessoa…

MR - Você gosta de “Lost”, não é?

BC - APAIXONAAADAAAA!!! Hahahahahahah! Hoje vai até dar tempo de assistir!

MR - E semana que vem, acaba.

BC - Ai, semana que vem acaba! Vou fazer pipoca em casa, alguma coisa. Nossa, vou fazer a maior festa! Hahahahahaha!

MR - Para concluir: o que te acalma quando você está “daquele jeito”?

BC - Algumas coisas: escrever me acalma muito. Alongar, por conta do balé, que tem muito de alongamento. No carro, especialmente, que é o lugar mais estressante do mundo para mim, tem algumas trilhas sonoras que me salvam. Uma é colocar na Cultura FM, que toca música erudita (que eu amo); outro é o Lokua Kanza, que é um africano incrível e que eu amo de desmaiar. Em geral, músicas africanas, porque tem muitas vozes, é percussão e voz, é algo bem interessante…

MR - Conhece Dave Matthews?

BC - Conheço! Ele é animal! Hahahahaha! Além disso, tricotar! Eu mesma estou tricotando as minhas próprias polainas. Mas é mais ler e escrever, a minha maneira de relaxar. Porque aí eu choro e tal, e fica tudo lá…

MR - Qual a sensação de cair da Teia?

BC - É ótima! Hahahahaha!!! É ótima, adorei!

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E Bruna riu mais; soltou gargalhadas…

Thomas Roth caiu na Teia!

Por Igor Férva // Foto: Divulgação

Thomas Roth é conhecido atualmente como jurado do programa Qual é o seu talento do SBT. Mas para a galera que viveu bem os anos 70 e 80, esse carioca já era um músico renomado, pois fez uma dupla de sucesso com Luiz Guedes, além de ter composto músicas interpretadas por ninguém menos que Wanderléa e Elis Regina. Além de jurado, cantor e compositor, o cara é publicitário e produtor, e capitaneia uma produtora e uma gravadora: Lua Nova, e Lua Music.
Perguntado sobre a sua idade, Thomas faz mistério e diz: “Segundo Deepack Chopra, um dos pensadores contemporâneos que faz também às vezes de guru, o ser humano tem apenas duas idades. Vivo ou morto. O resto só serve para “colocá-lo em gavetas discriminatórias”. Por exemplo: “- Você não tem idade pra fazer isso ainda.” “- Imagina… você tá velho pra isso….” Enfim, eu tô vivo (sic). É isso”.
Por email ele nos concedeu uma entrevista onde responde sobre as músicas dos dias atuais e o que podemos esperar do cenário fonográfico daqui pra frente, além disso, ele conta o que anda fazendo como compositor. Confira como foi o bate papo, por Igor Férva.

Igor Férva – Como você vê o cenário musical brasileiro hoje em dia?

Thomas Roth - Com olhares contraditórios. Por um lado, vejo com extrema alegria e esperança a ebulição musical que acontece pelo país afora. O Brasil é hoje, mais do que nunca, um caldeirão multifacetado, com dezenas e dezenas de vertentes sendo criadas, produzidas, divulgadas e consumidas. Há um turbilhão de idéias e formatos. As pessoas descobriram, até por força das novas ferramentas e equipamentos, que podem fazer tudo em casa, sozinhas. Rolou uma espécie de libertação do jugo das grandes gravadoras, que acabaram perdendo o foco artístico / cultural e passaram a se dedicar mais ao “entretenimento”, ao sucesso efêmero, barato, se rendendo a fórmulas fáceis, imediatistas, corrompendo a mídia, via jabá, marketing e outras formas de “direcionar” o sucesso. Por outro lado, ninguém sabe direito pra onde a coisa vai. Cada um diz uma coisa e a verdade é que tudo indica que levaremos algum tempo pra saber e entender exatamente quais os caminhos para distribuição e divulgação da música. Principalmente se observarmos sob a ótica do direito autoral. E, principalmente, como ficarão os modelos de remuneração numa era de troca de arquivos gratuitos. Quem faz show, bem ou mal, se garante. E o compositor, onde fica neste panorama?

De qualquer modo, sob o ponto de vista criativo, vivemos um momento único. Nunca houve tantas correntes diferentes e o próprio jovem, que, no meu tempo, só consumia rock, ou samba, ou sertanejo, hoje consome de tudo ao mesmo tempo. Acho muito saudável ver que no play list de um IPod de um jovem de hoje você encontra de tudo. Hip Hop, pagode, sertanejo, popfunkrock, música eletrônica.

O cara ouve e consome de tudo. Acho isso muito positivo por ser, a meu ver, a antítese do preconceito. Entretanto, confesso, fica sempre uma interrogação na minha cabeça:

“Esse moleque ouve isso porque não tem preconceito, é cabeça aberta, ou ele não tem critério? Porque, de qualquer modo, o nível de qualidade criativa destas músicas é bastante discutível.

Agora, independente dos aspectos citados acima, o que se ouve no rádio e na TV, exceto uma música ou outra, é muito ruim. Estamos vivendo uma era onde nunca se produziu tanto. Por isso mesmo nunca se ouviu tanta merda, também. Mas, não discuto gosto. Só sou a favor de que todo mundo possa ter acesso e direito de escolher aquilo que quer ouvir. E não que seja obrigado a ouvir aquilo que as gravadoras querem empurrar ao consumidor.

IF – O quanto você acha que sites como Myspace e Youtube ajudam na divulgação de novos músicos? E o quanto atrapalha?

TR - Só acho que ajuda. Muito! É a democratização do acesso a informação. Acho duas das ferramentas mais importantes da atualidade. Porque atrapalharia? Não consigo enxergar uma razão negativa aí.

IF – A venda de álbuns em sua opinião ainda sobreviverá, ou tende chegar ao fim com essa onda de fazer downloads?

TR - Com o tempo, chegará ao fim. Na minha gravadora, a Lua Music, ainda vendemos um razoável volume de CDs, principalmente em função do tipo de produto que vendemos. A gravadora é focada na produção de música de qualidade (vocal ou instrumental), música brasileira da boa e a chamada música de “bem estar” (música para Yoga, relaxamento, meditação, etc.). Temos um catálogo muito forte nesta área. Que é dirigido para um público mais velho, que ainda consome CDs e não está afeito aos downloads e trocas de arquivos. Mas a gente sente, mês a mês, que a queda dos números é constante. A pirataria foi um golpe fatal no CD. Além disso, ele não é sequer a melhor plataforma se olharmos sob o ponto de vista da qualidade do áudio. Os audiófilos ainda preferem o vinil ao CD, uma vez que o espectro de frequências é bem mais amplo. E acho que este “novo conceito” de se vender “faixa a faixa” é um caminho sem volta. Por isso, não consigo, sinceramente, vislumbrar um suporte físico que seja vendido como um álbum. Um pen drive ou outro aparelho qualquer que contenha uma coletânea, com um montão de músicas, de vários artistas, pode até ser. Mas não este formato tradicional que ainda temos hoje. Este, pra mim, está condenado.

IF – Você vê potencial em algum cantor(a) ou banda da nova geração marcar o seu nome para sempre? Se sim, quem ou quais?

TR - Esta é, realmente, uma questão extremamente difícil de responder. Existem hoje, centenas de excelentes artistas despontando. Desde Céu, Tatiana Parra, Mariana Aydar, Nina, Maria Gadú, Pélico, a Banda 2ois, e por aí afora. São muitos nomes. A Céu, até por força de sua origem (é “filha de peixe”) já está mais perto de sacramentar seu lugar no Olimpo. Ainda tem um bom pedaço de estrada pra chegar lá, mas está no caminho certo. A Tatiana Parra é uma cantora espetacular. Delicada, afinadíssima, sensível, “filha de peixe” também. Sua mãe, Cidinha, é uma das maioresbackings dos anos 70, 80 e 90. O Pélico tem um trabalho muito original e personal. A Banda 2ois é, pra mim, uma das melhores coisas que surgiram no Pop Rock dos últimos anos. O Léo e a Sih são uma dupla infernal. Letras e canções de primeira. Quem vai seguir? Quem vai ficar no meio do caminho? Difícil antever. Como dizia Mariozinho Rocha: “Se eu soubesse o que vai realmente “virar”, ser sucesso, eu não trabalhava pros outros. Montava minha própria gravadora!”. Na época, Mariozinho era Diretor Artístico da Emi Odeon. Hoje é Diretor Musical da Rede Globo. Mas potencial, vejo em muita gente.

IF – Como vê o futuro da música em relação à produção, composição e tecnologia?

TR - Produção: Cada vez mais independente. Assim como eu montei há 12 anos a Lua Music, centenas de artistas montaram seus selos e gravadoras. Este é um caminho sem volta. Talvez possam surgir cooperativas e outras formas de se agrupar e agregar essas empresas independentes. Isso é característica do ser humano e mais ainda do artista, do músico. As pessoas têm necessidade de se sentirem “parte de algo maior”, onde possam trocar experiências, idéias, fazer parcerias, planejar eventos maiores. O artista não trabalha para si mesmo. Ele quer ser visto, ouvido, reconhecido, amado. Ele quer levar seu trabalho ao grande público. Sozinho, isto é uma missão quase que impossível.

Composição: Aqui temos uma questão complexa. Se, por um lado, o ato de compor é uma necessidade quase que orgânica, é uma manifestação espontânea, um dom, um talento, por outro, dentro do novo modelo que se está apresentando, a remuneração do compositor passa a ficar extremamente comprometida. Se vingar o modelo que muitos defendem, de “direitos livres”, troca de arquivos grátis, de não respeito aos direitos autorais, a vida e o futuro do compositor estão seriamente comprometidos.

Tecnologia: uma incógnita. Estamos todos vivendo e assistindo a uma revolução tão ou mais significativa que a Revolução Industrial. Não temos a real dimensão de “aonde isso irá nos levar”, “onde isso irá chegar”. A tecnologia simplificou os meios de produção musical. O que antes exigia grandes estúdios, com grandes salas, todo um projeto acústico, mesas e máquinas caríssimas, hoje está dentro de um PC, um Mac. São infinitas as possibilidades. Os mais puristas dirão: “Ah, mas não se compara. Uma orquestra gravada num estúdio nunca poderá ser simulada ou reproduzida via samplers, programas, teclados, periféricos e afins”. Lamento informar que poderá sim. Raríssimas são as pessoas que vão atrás de um som bem gravado. O que as pessoas querem, o que as seduz e conquista é a emoção, a melodia, a letra. Se foi gravado com orquestra ao vivo, ou tudo no computador, pouco importa. A tecnologia facilitou e democratizou os meios de produção, divulgação e distribuição. Lembro  àqueles exaltados que renegam a tecnologia, que esta não substituirá o homem. A máquina não é capaz de fazer nada sozinha. Sempre haverá um músico, um criador, um produtor musical atrás do computador.

Acho, porém, finalizando esta questão, que a música perderá seu status de arte / cultura. A música está virando “chiclete”. Pouco a pouco está perdendo seu caráter exclusivo. Hoje todo mundo cria, canta, produz. Pra mim, não estamos longe do dia em que entraremos numa padaria ou num supermercado, nos dirigiremos até um totem qualquer e compraremos 10 ou 20 reais de música. Aliás, não acho nem que compraremos. Acho que faremos uma assinatura mensal, como TV a Cabo ou algo similar e teremos um cartão, uma senha qualquer, que nos dará livre acesso a milhares e milhares de músicas. A música está virando apenas lazer, entretenimento. Estamos cada vez mais perto do karaokê e cada vez mais distantes dos grandes concertos com nomes consagrados mundialmente. Acho que em breve, assim como já se assiste no BBB e como previa Andy Warholl, todos teremos 15 minutos de fama. E ponto.

IF – Quais suas dicas para músicos em começo de carreira?

TR - Persistência, perseverança, trabalho duro e sério. Eu sempre digo que quem quer ser músico, artista, tem que estar preparado para “ralar”. Não tem moleza. A profissão de artista é extremamente gratificante, mas muito difícil. Exige enormes sacrifícios. Quem pretende, de fato, seguir e construir uma carreira sólida tem que trabalhar, com honestidade de propósitos, sem se deixar seduzir pelo oportunismo, pela fórmula mais fácil, pelo sucesso efêmero, barato. Tudo que sobe muito rápido desce igualmente rápido. Para se construir uma carreira com solidez, recomendo que estude muito, pratique muito. Procure encontrar seus próprios caminhos, sua verdade, sua linguagem particular. Não imite os outros. Não tente ser igual aos outros. Procure seu próprio espaço. As pessoas se identificam com aqueles que são verdadeiros, genuínos, que têm identidade. É isso que as pessoas buscam hoje. Acho até aceitável que as pessoas tenham referências, que se inspirem neste ou naquele artista. Mas não tente ser igual. As pessoas sempre preferirão o original. Não a cópia. Agora, para aqueles que querem “brincar” de ser músico, artista, não tenho nada a dizer. Apenas, boa sorte.

IF – Você ainda compõe?

TR - Muito. Tenho umas cinquenta músicas inéditas. Estou gravando meu disco, cujo título éMulheres, Homens e Sonhos. Estou muito feliz com o trabalho que venho desenvolvendo. Não é música pra dançar. É música para ouvir. Montei a Lua Music para gravar meu disco. Mas surgiu tanto artista importante, tanto trabalho significativo, que fui adiando. Nisso se passaram 12 anos, lancei 350 títulos. Entre eles: Caubi cantando Roberto Carlos, dois discos do Jards Macalé, “Seu” Guilherme de Brito (da Velha Guarda da Mangueira), Aldyr Blanc, Alaíde Costa 50 anos de Carreira, Ângela Maria 50 anos de Carreira, Wanderléa, Moacyr Luz, Vania Bastos, Virgínia Rosa, Filó Machado e uma legião imensa de excelentes artistas. Agora estou fazendo o meu. Não vejo a hora de trazê-lo a público.

IF – O que toca no seu Ipod atualmente?

TR - Um pouco de tudo. Como músico, produtor, publicitário e, agora, como jurado, tenho que estar a par de tudo o que está rolando. Tanto que ouço muito rádio também. AM e FM. Mas tenho minhas preferências, claro. Dependendo do momento, adoro ouvir música clássica, jazz, ou um MPB maneiro tipo Tom Jobim, João Gilberto, João Donato. Mas, depende da hora. Tem hora que nada como um lounge ou um rock. E tem hora que eu adoro ouvir um Zeca Pagodinho, um João Nogueira, um Martinho. Gosto de tudo. Adoro ouvir Jackson do Pandeiro, Genival Lacerda. Assim como adoro ouvir Guershwin ou Rachmaninoff. Adoro Caetano. Adoro Lenine. Adoro Gonzagão, Dominguinhos, Michael Jackson, Nana Caymmi, Elis, Bethânia, Beatles, Rappa, Genesis, Almir Satter, Pat Metheny, Elomar. Adoro forró! Adoro o sertanejo verdadeiro, como: Helena Meirelles, Pena Branca e Xavantinho, Roberto Corrêa. Enfim, traduzindo: sou uma puta musical.