Chorinho é atração do Tom Natural neste sábado

O projeto Tom Natural apresenta grupo Quitanda amanhã, a partir das 20h30, em frente ao Shopping Villagio (Sorocaba). O quarteto de choro é formado por Richard Ferrarini (sax, flauta e clarinete), Evandro Marcolino (violão e bandolim), Guilherme Fanti Correa (cavaquinho e violão) e Marcio Corrêa (pandeiro). No repertório, canções de Pixinguinha, Jacob do Bandolim e K-ximbinho, entre outros grandes nomes da música popular brasileira.

(Source: facebook.com)

A boa música em mais um Metso Cultural

Por Lívia Gusmão // Foto: Pedro H. Negrão

Chorinho com gosto de maxixe, caindo no romance das serestas. Assim foi a manhã de domingo em mais um Metso Cultural. Já nem vou citar o típico sol, porque a seca está castigando até a Terra da Garôa, imagine a Terra Rasgada? Mas Euclides Marques e Luizinho 7 Cordas fizeram valer a pena ficar sob o mormaço no Campolim. “Desprezado” de Pixinguinha ganhou ares ainda mais abandonados nos baixos das 7 cordas de Luizinho e no violão de Euclides, e “Marcha dos Marinheiros” com levadas de tango e flamenco e abrasileirada com “O Guarani”, de Carlos Gomes. Aliás, grandes nomes como Pixinguinha, Canhoto, Patápio Silva, Ernesto Nazaré e João Pernambuco foram executados com maestria pela dupla. Euclides Marques tirou um “Berimbau” de suas cordas em apresentação solo, num vôo livre e único para bem perto dos saudosos – e certamente orgulhosos da interpretação – Baden Powell e Vinícius de Moraes. A cada lembrança sonora perdida nas entranhas do público, um “nooooossaaaaa” ecoava e os músicos sorriam agradecidos.

Até aí a gente chega a pensar que já viu tudo: a simpatia e simplicidade da dupla; os bonés pedindo arrego a jornais por não darem conta do sol; o lembrete de Marco de Almeida sobre o descuido da Prefeitura com a grama que há 4 anos é palco do Metso Cultural; as comadres que vão apenas para serem vistas por colunistas sociais e ficam de teretetê na hora errada. Pois bem, quando a gente pensa que já viu tudo, sobe ao palco o Quinteto em Branco e Preto. Em uma versão mais do que verde e amarela de “Samba do Avião” (Tom Jobim), a dupla e o quinteto fizeram a platéia decolar.

Quinteto em Branco e Preto é uma das boas novidades do samba de raiz. Longe de ser aqueles grupinhos de pagode sem talento, muitíssimo pelo contrário. Samba de verdade entoado na voz de cinco jovens músicos. Esse quinteto provou que o samba é o ritmo unificador de classes, cores e amores.

Luizinho 7 Cordas deu uma verdadeira aula de cultura de raiz, bradando sobre o privilégio de levar chorinho a essa geração que vê bundas e peitos na TV. “Nada contra a Mulher Melancia”, ele dizia, e eu no meio do povo falando “Assuma! Eu assumo: tenho tudo contra”. Pode parecer engraçado, mas se continuarmos no “veja bem” não mudaremos muita coisa. Falar é um bom começo. Aproveitando o ensejo, quero fazer um adendo. Com a quantidade de políticos no local, eu me pergunto: se eles desfrutam de iniciativas culturais como esta, por que não investem em cultura com impacto coletivo, ao menos para proveito próprio?

Para finalizar, uma visão panorâmica: um palco repleto de talentos exportados porque, infelizmente, não encontram o devido reconhecimento nesta terra rica e dotada de… ignorância.

Entrevista com Euclides Marques

LG – Com tantas pérolas na Música Popular Brasileira, qual foi o critério na escolha do repertório do CD “Remexendo”, lançado em 2006?

EM – Essa pergunta é boa. O grupo já está indo para quase dois anos de estrada, se apresentando em várias cidades e também no exterior. Quando conheci o Luizinho, começamos a tocar e, na semana seguinte, já teve show. A parceria começou ali. Nesse CD, metade do repertório são obras-primas bem conhecidas como Samba do Avião do Tom Jobim, Berimbau e outros; na outra metade, fizemos questão de colocar obras-primas muito pouco conhecidas. Procuramos trabalhar com esse conceito de grandes compositores como Pixinguinha, Tom Jobim e grandes obras bem conhecidas e outras muito pouco conhecidas. É um trabalho de arranjos, de recreação. Procuramos reinventar essas obras, revelando belezas que estavam ocultas nelas. Acho que esse é o grande barato da reinvenção dos arranjos: é uma composição em cima da que já existe, é uma releitura, dando esse jeito nosso de tocar, que é o duo de violão bem brasileiro.

LG – Os arranjos são elaborados pela dupla em conjunto? Tem toques de maxixe, de tango, flamenco… quem trouxe isso para o repertório?

EM – Os arranjos de base são meus, só uma que o Luizinho fez os arranjos de base. O arranjo de base é a introdução, a forma da música, a harmonia. Como a gente trabalha com um violão de seis cordas solando e um violão de sete cordas acompanhando, eu deixo o Luizinho. Escrevo alguns arranjos, como a introdução; algumas convenções no meio da música, a harmonia… O resto é tudo improvisado pelo sete cordas. O trabalho do violão sete cordas na música brasileira é de improvisação mesmo, e o Luizinho é hoje talvez o maior mestre. O Dino já se foi e apontou ele como sucessor, então o Luizinho é um dos maiores mestre nessa área do violão sete cordas. O arranjo também dá um pouco de liberdade nas variações, como você percebeu muito bem aliás. Porque, às vezes, a gente coloca levada de samba no meio do choro e outras influências também, até habanera; tem uma parte em habanera no Ernesto Nazaré e acho que tudo isso enriquece. A nossa música vem de várias influências, de muito tempo, e acho que isso que enriquece o Brasil em termos musicais e até culturais mesmo. Essa mistura meio que sem preconceitos, essa coisa legal que é a mistura, mistura de raças e de culturas. A nossa música reflete um pouco disso também.

LG – Como é levantar o chorinho no meio de tanta coisa de má qualidade que se tem hoje? Como é levar esse trabalho novo? Tem gente que se surpreende não com a qualidade na execução – que é indiscutível -, mas a qualidade das obras que estão ainda escondidas no Brasil e que nem todos conhecem?

EM – Você sabe que sobre essa questão eu sou um cara bem otimista. Eu acho que é o pior já passou. Alguns anos atrás, talvez na década de 80, eu era menor, mas lembro e acho que situação era pior, porque você tinha só as grandes empresas da mídia que dominavam. Hoje, com a internet e a facilidade de gravação em estúdio, eu acho que as coisas estão mais fáceis. Em relação ao choro, nossa música instrumental, a cada geração a gente se surpreende com a qualidade de músicos que aparecem, mais novos e tocando pra caramba. O Luizinho é mais velho e já viu várias gerações, que aparecem a cada ano. Eu acho que a produção de música legal nunca acaba. Tem momentos de maior atenção para ela. Acho que estamos num momento legal. Eu não tenho preconceito, acho que existem músicas para todos os fins: tem músicas pra você ouvir em restaurante, no elevador, atrás do trio elétrico na Bahia, tem música pra você ouvir aqui sentado, tem música pra ouvir em teatro. O negócio é você promover diversidade. Esse projeto (Metso Cultural), pelo que tenho visto, vai bem nessa linha. A gente vê apresentações instrumentais de choro, de samba. Eu vi que tem outras coisas de bossa nova – Roberto Menescal, João Donato, Marcos Valle, mesmo porque 2008 são 50 anos de bossa nova. Eu acho que o lance é a diversidade, é você proporcionar às pessoas o contato com tudo que a gente tem de legal. O ruim é quando fica só num tipo de música. Mas acho que isso está melhorando, estou super otimista, o brasileiro é super criativo e inteligente e nossos dirigentes, acho que estão cada vez mais ligados nisso. O que eu estava falando para o outro repórter (Marcelo Rosa) é que eu acho que a iniciativa privada, como é o caso da Metso, é fundamental, porque o Brasil, um país em desenvolvimento, fica esperando muita coisa do governo e não é assim. Você vai para o Japão, para a Europa, para os Estados Unidos e a maior parte da cultura é bancada pelas empresas. Lá isso é comum; aqui no Brasil, não. Uma iniciativa como a da Metso é avançada para o Brasil, é uma coisa moderna e o caminho é esse mesmo.

Entrevista com Maurílio de Oliveira (Quinteto em Branco e Preto)

LG – Vocês possuem um talento evidente, inclusive para exportação, e trabalham no mercado concorrido do samba e pagode. Como é levar samba de altíssima qualidade para um público que ainda está acostumado a ouvir sempre a mesma coisa?

MO – Há uma resistência muito grande, porque a gente procura fazer o samba da maneira que ele é, com toda a preocupação desde a criação até tentar trazer para o público. O legal é que, quando temos um som de qualidade, como aconteceu hoje nesse projeto, é uma maneira de a gente transmitir mensagem da maneira correta. Seria mais fácil se tivéssemos esse apoio de poder fazer o palco do samba ter essa qualidade como teve hoje. Não precisamos muito de mídia, não precisamos de muita coisa. Só precisamos que, quando o trabalho estiver sendo realizado, principalmente com o samba, ele tenha a mesma competência como é com todos os outros estilos de música que tem no Brasil. E todos eles são uma ramificação do samba, todos são da família do samba. Às vezes, a gente só não tem idéia de onde vem o gênero, mas tudo o que se pensa de música brasileira é um dos filhos do samba. Se tivermos o mesmo tratamento que tem num modo geral, conseguimos transmitir essa mensagem independente da mídia, porque o público consegue entender, o público é inteligente.

LG – Formação em quinteto para samba, em relação a outros grupos, é uma formação enxuta. Como vocês trabalham isso musicalmente para preencher todas as lacunas, para soar como se tivesse um batalhão de gente tocando samba com vocês?

MO – A coisa é mais simples do que se imagina. Por exemplo, com o volante de um carro, ninguém fica virando da direita pra esquerda toda hora; tem uma hora que você pega uma linha reta. A mesma coisa acontece com a música: ela tem a vertical e a horizontal, a gente respeita essas duas formações da música. Então o que acontece é que a gente faz com simplicidade. O surdo respira junto com o repique de mão, que respira junto com o pandeiro, que respira com o cavaquinho, que respira com o violão. Não é muito a formação. É mais simples, básica; a nota certa no lugar certo. Um cavaquinho e um pandeiro já resolvem tudo, mas nesse Quinteto – graças a Deus – a gente respira junto. Isso é até uma mensagem para os grupos que estão fazendo o trabalho: se não respirar junto, não dá; é junto que você mostra um som único.

LG – São cinco corações batendo no mesmo compasso?

MO – É, é meio matemática a coisa. Um respeita o outro, um respeita o momento do outro. É importante que o músico, principalmente do samba, saiba que ele toca cavaquinho, mas que tem que entender a célula que o surdo faz, que o repique faz, que o pandeiro faz. Ele não pode simplesmente ser um músico de cavaquinho. Por isso que, às vezes, tem essa comparação do instrumental com o samba, do choro com o samba. Às vezes, tem essa separação porque não existe essa informação na mente. Quando tem, acontece como aconteceu hoje, com o show do Luizinho e com a gente também, que é uma coisa só. É todo mundo indo para o mesmo caminho, a gente sabe a função de cada instrumento. É importante que os artistas tenham esse conhecimento, tem que pesquisar, tem que estudar.

Levanta, sacode e Tira Poeira para “sincar”!

Por Lívia Gusmão // Foto: Pedro H. Negrão

Mais um Metso Cultural em Sorocaba e eu já estou ficando maluca com esse tal de fazer sol depois de tanto frio e garoa. Será que São Pedro tá ajeitando um heavy metal do Senhor no Campolim? Bom, vamos ao que interessa de fato. O quinteto Tira Poeira realmente merece ser “amadrinhado” por Maria Bethânia.

Uma maria-fumaça adentrou o parque do Campolim quando “Trenzinho Caipira” (Villa-Lobos) foi executado numa releitura que transformou a obra em hino. Depois, “Chega de Saudade” (Tom e Vinícius) num coro tímido do público, que foi se achegando de mansinho, até cair num choro-canção gostoso e muito bem levado. Quem não viu a interpretação de Elis em “Atrás da Porta” (Francis Hime e Chico Buarque), quando ela chora e canta, se emociona…? Pois bem, Tira Poeira arrancou um lamento do sopro, sofrido, choroso, lindo de fato.

Esse diálogo entre os músicos seguiu do começo ao fim, e os aficcionados por apresentações culturais que dão status não foram. Sorte de quem estava lá, pois pôde esticar – um pouco – as pernas e se espreguiçar na grama. Azar de quem não viu.

Tira Poeira apresentou as músicas do segundo cd “Feijoada Completa”, que estava à venda no local, ao lado do primeiro álbum “Biscoito Fino”.

A Teia Cultural entrevistou Henry Lentino (bandolim), numa conversa curta, mas bastante descontraída!

LG – Como aconteceu a formação do Grupo?E quanto tempo levou para gravarem o primeiro CD?

TP – Eu cheguei, em 1999, no Rio de Janeiro, e senti muita vontade de formar um grupo, aí formei um grupo para um trabalho. A primeira formação era um outro pessoal, mas a formação que deu certo e que a gente conseguiu consolidar um trabalho foi essa atual. Com esse grupo, a gente foi tocar na Lapa, no Rio de Janeiro. Então, o Paulo Sérgio Campos, clarinetista muito famoso, muito conhecido, muito bom – pai do Caio -, falou “Por que vocês não gravam um disco com as músicas que vocês tocam na roda?”. Ele botou essa “pilha” e a gente concordou em fazer um disco. Apresentamos um trabalho para a Biscoito Fino – isso mais ou menos uns 5 ou 6 anos atrás, já com essa formação -, então começou a dar certo. Fizemos uns trabalhos com a Maria Bethânia, ela ouviu nosso disco; vários artistas ouviram; fizemos uma temporada no Rio de Janeiro. Participaram, com a gente, Lenini, Bete Carvalho, Zélia Duncan, enfim vários convidados. Começamos a ficar conhecidos; participamos do Prêmio Tim; para o Prêmio Vivaldi, a gente foi indicado. Esse segundo disco é recente, gravamos no ano passado e faz dois ou três meses que estamos lançando. Está fresquinho!
O nome do grupo, na verdade, veio de um telefonema. Sou gaúcho – moro há 10 anos no Rio de Janeiro – e foi uma coisa bem espontânea, conversando com meu pai sobre como nome de choro é uma coisa bem irônica. Perguntei a ele o que achava de “Levanta Poeira”, “Tira Poeira”; ele achou “Tira Poeira” legal, e essa formação já têm uns seis anos.

LG – Li em uma entrevista que vocês não acreditam no conceito de música “tradicional” e “não tradicional”. Isso tem a ver com a tendência de universalização dos ritmos?

TP – Eu acho que, para começar, música é música; não interessa onde for, é uma linguagem que independente do idioma. Se você tocar é o mesmo idioma, os músicos se entendem em qualquer lugar do mundo, de qualquer parte. A gente começou a fazer essas coisas com muito respeito à tradição e ouvindo muito o choro raiz, bandolim, época de ouro, Pixinguinha, Galo Preto e outro grupos que vieram depois; até os grupos que começaram a transformar algumas coisas como Novos Baianos, A Cor do Som, Nó Em Pingo D’Água, Camerata Carioca… Então todo mundo escutou e estudou muito a música, claro, cada um com suas características: Sérgio, música cubana; Caio, jazz; Samuel, jazz, música flamenca, choro, samba, bossa-nova; também com a influência de Bob Marley, Jimi Hendrix, John Coltrane; música erudita, Chopin, Bach… Com toda essa bagagem, essa influência, você acaba, mesmo inconscientemente, influenciando sua música na hora em que vai compôr ou fazer um arranjo.

LG – Maria Bethânia os considera “puro rock”. Como se explica esse rótulo? Tem a ver com a universalização?

TP – Acho que ela viveu um movimento muito forte na música brasileira, aquela coisa do tropicalismo, Novos Baianos, enfim. E com atitude. Acho que o rock que ela quer dizer não é só o som, mas a atitude do palco, atitude do tesão, da paixão, do orgasmo (risos).

LG – Foi um duelo ou um diálogo que rolou no palco?

TP – Eu prefiro a palavra diálogo, porque é o bate-papo que houve, uma energia positiva. Acho que música não tem competição, não tem “o melhor” porque sempre vai ter um melhor que você, e o grande lance é você respeitar, ouvir isso e se influenciar, por que não, né?